Era um dia qualquer do início de Fevereiro. O inverno ainda se fazia presente, apesar das temperaturas estarem um pouco melhor do que Janeiro e o sol já se pôr um pouco mais tarde. As chuvas estavam abundantes e grande parte das cidades no sul estavam alagadas. Eu havia tirado o dia fora do trabalho para resolver minhas pendências de documentos e decidi ir de ônibus para Lisboa, pois era mais barato e praticamente o mesmo valor do que o trem. Trens aqui não eram tão confiáveis e eu poderia, por exemplo, comprar minhas passagens e eles resolverem que seria um dia de greve. Eu perderia as passagens e ainda teria o gasto para comprar alguma de última hora. O ônibus seria de certa forma conveniente, e ainda sim manter o nível de conforto.
Saí da minha cidade por volta de cinco da manhã, para assim chegar com certa folga de tempo até o consulado. Logo que entrei e fui em busca do meu lugar, já reparei que o espaço já não era tão grande, esses ônibus low-cost tendem a ser menores e mais compactos, provavelmente gastam menos e assim eles conseguem cobrar valores acessíveis. Outra coisa que percebi é que eu viajaria ao lado de um rapaz que já ocupava seu assento no corredor com uma bolsa térmica pequena ao seus pés, um grande casaco em seu colo, um computador portátil por cima e seu smartphone nas mãos. Levei mais tempo que eu gostaria para conseguir sentar no banco ao seu lado. Fiquei espremida no canto a observar meu relógio no pulso, faltava oito minutos para a partida prevista. Depois três, um minuto... Minha ansiedade aumentava junto da expectativa de que mais ninguém embarcasse e aqui está meu ponto: enquanto eu aguardava esses preciosos minutos, entrei no aplicativo da companhia de ônibus e simulei uma nova compra, assim eu poderia ver os lugares ainda vagos e, após o embarque, eu poderia me mudar de lugar sem nenhuma preocupação. Assim que a porta se fechou, arremessei minha mochila para o banco da frente, que eu já sabia que estaria vago, bem como o ao lado dele. Pedi desculpas mais uma vez para o meu quase companheiro de viagem e me mudei. Acredito que ele ficou feliz com essa mudança, logo o vi "pular" para o banco ao lado da janela e colocar todas as suas coisas sobre a poltrona ao lado, tendo muito mais espaço e conforto assim como eu. Pensei então em como essas viagens com desconhecidos são tão íntimas, não é? Óbvio que eu tinha a opção de adquirir o lugar ao meu lado por uma diferença de valor na hora da compra, mas como meu intuito era pagar barato nas passagens, eu não faria isso. Mas pensar que eu passaria várias horas num cantinho apertado com alguém ao meu lado, que não conheço, que poderia estar com mau cheiro ou um perfume que eu odiasse, seria bem chato e constrangedor.
Confesso que três horas e meia dentro de um ônibus, sem nenhuma parada no caminho, foi um pouco desgastante, mas pelo menos não havia ninguém ao meu lado, então eu pude relaxar um pouco mais, colocar-me numa posição um pouco mais confortável vez ou outra para me alongar. Consegui cochilar algumas vezes, o que me salvou de uma terrível dor de cabeça de ter dormido pouco na noite anterior. Assim que chegamos à Lisboa, a primeira parada foi no aeroporto. Muitas pessoas desceram ali, inclusive o meu quase companheiro de viagem. Quando ele se levantou para descer e passou por mim, nossos olhares se cruzaram e eu recebi o olhar de gratidão, um agradecimento por eu ter pensado de uma forma que ele talvez não tivesse pensado e nos libertado de uma viagem incômoda. Aquele gesto me fez sentir melhor e também reflexiva sobre os comportamentos dos europeus e turistas no geral. A maioria deles respeita o lugar que adquiriu na viagem ou que lhe foi atribuído no processo de compra e não se atreve a trocar, mesmo que tenha ficado ao lado de alguém desconhecido e que haja outros lugares vagos. Eu entendo, mas para mim não faz sentido eu não aproveitar uma oportunidade de ir para um lugar melhor sendo que não vou prejudicar ninguém e aquele local também não seria de outra pessoa. Seria sempre uma pequena corrida dos mais espertos dentre todos os ocupantes? Talvez... Mas não foi um pensamento que ocupou muito meu tempo ali. Logo chegamos no destino final, a grande estação de ônibus que era também conectada a um shopping e outros meios de transporte, como metro, ônibus da cidade e trens.
Não era nem nove horas da manhã ainda, então decidi me dirigir a um café e comer alguma coisa. Encontrei um café pequeno, mas bem simpático e atrativo. Havia algumas pessoas no local, mas consegui uma mesa num canto para pousar minha mochila e comer uma tosta com meu cappuccino tranquilamente. Eu sempre peço a mesma coisa em todos os cafés, isso é um fato que me incomoda. Eu percebi que, por estar num país que eu não tenho muita segurança em relação à cultura, costumes e hábitos alimentares, eu tenho vergonha de pedir coisas diferentes. Tenho vergonha de não saber como chamam o café americano aqui, de não saber o nome dos salgados ou pães da vitrine e sinto-me insegura de perguntar. Era a mesma coisa na Itália. Eu treinava cinquenta vezes no espelho para pedir "Un cornetto e un caffè ristretto, per favore". Nunca consegui completar esse pedido. Sempre um caffè ginseng, puro, sem nenhum outro acompanhamento, tudo por uma limitação imaginária que eu mesma me coloquei. E nunca passei por nenhum tipo de trauma ou humilhação para desencadear esse comportamento, não que eu me lembre... Mas enfim, é algo a se trabalhar na terapia.
Tudo correu bem depois que fui para o consulado. Peguei o metro desde a estação até descer numa rua próxima, os vagões já estavam vazios, pouca gente se deslocava naquele meio da manhã. O clima estava bem agradável, tinha sol e pouco vento. Em questão de meia hora eu consegui fazer e resolver tudo, então aconteceu o que eu não previ. Minha passagem de retorno era apenas uma hora da tarde, e eu acabei saindo do consulado antes das dez e meia. Pensei, por um pequeno momento, em alterar minha passagem para as onze, que facilmente eu conseguiria embarcar. Então, quando vejo o valor da alteração, me pego a refletir. Fiz de tudo para economizar dinheiro e pagar dez euros pelas duas viagens, que sentido faria se eu gastasse mais vinte e cinco para trocar? Nenhum, então ao invés de me preocupar em embarcar noutro ônibus mais cedo, eu decidi passar essas horas, que nem era tanta coisa assim, no shopping ao lado da estação. Esse foi meu primeiro erro. Se eu tivesse trocado e pagado essa diferença, eu teria chegado em casa cedo, teria tomado um bom banho e relaxado, não gastaria com almoço?lanche fora e o "caro" sairia mais barato para mim.
Durante os meses de Janeiro e Fevereiro há sempre os saldos de inverno. As roupas de coleções anteriores ficam absurdamente baratas em relação ao preço original e esse se torna o grande momento de comprar roupas na Europa. Eu ainda não estava com fome para almoçar, então decidi vagar pelas lojas e ver se encontrava algo que valesse a pena nos saldos. Segundo erro. Quem quer economizar no sentido de não gastar mesmo, não pode ir para um shopping, principalmente em época de saldo. Eu encontrei diversos "esse está com um preço muito bom, me serviu, então vale a pena levar". Nessa onda eu acabei gastando trinta euros e comprando uma calça jeans, um cardigan, e duas camisetas. Quase fiquei sem espaço na mochila, que por sorte, foi vazia apenas com alguns documentos e minha necessaire. Eu não ia pagar por sacolas, e muito menos ocupar minhas mãos com elas e perder minha praticidade. Então, dos vinte e cinco que eu não quis gastar na troca das passagens, já havia gastado cinco euros a mais e nem havia almoçado, que ironia. Resolvi comer uma pizza fast food Aproveitei também para ir ao banheiro, escovar os dente, dar uma ajeitada no meu cabelo e organizar minha mochila para a volta.
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